Equilíbrio é a base para o sucesso no mercado
PROFISSIONAIS - QualidadeBrasil Maio/98 - PÁG.18

      Você acha que com toda a experiência adquirida no mercado, chegou a hora de galgar degraus profissionais mais elevados. Afinal, você tem mais trinta anos, excelente formação profissional e gosta de trabalhar muito, preferencialmente quase sem parar. Esqueça. O workaholic está fora da moda. O mercado quer gente bem preparada, empreendedora e dedicada ao trabalho, mas que também reserve parte de seu tempo para o lazer.

      Você acha que é a pessoa certa para assumir elevados cargos porque tem muita expêriencia, um currículo brilhante e, sua avaliação uma saúde de ferro, embora há mais de dois anos não visite um médico para um check-up. Você não pratica atividades físicas, não sabe a quantas anda seu colesterol e nem tem idéia do que são triglicerídios. Dá no mesmo. Há gente com mais chances de chegar a esses elevados cargos porque o mercado quer profissionais com a cabeça fresca e que cuidem da saúde, pessoas também preocupadas com qualidade de vida.

      O perfil do profissional de área gerencial com boas chances no mercado, homem ou mulher, já é conhecido. Ele deve ter entre 30 e 35 anos, formação superior, um bom currículo, falar e escrever em pelo menos mais uma língua, possuir conhecimento em informática, viver dentro de um casamento equilibrado, com filhos e procurar constantemente seu desenvolvimento. Se tiver alguma expêriencia em sua área no exterior, melhor ainda.

      COMPORTAMENTO - Mas entre todos os que têm boas chances, conseguirão colocação aqueles que apresentarem diferenciais de comportamento, ensina Lúcia Helena Jorge, da De Bernt Entschev Searching, empresa que trabalha com recursos humanos há 13 anos em Curitiba.

      Márcia Body e Maritza Daniel, da Ágire Vinces Consultoria de Recursos Humanos, concordam. "O comportamento e o marketing pessoal são decisivos". Maritza diz que o candidatonão deve ser tímido, tem que apresentar determinação e interesse pelo seu trabalho. Ele não deve ter conflitos amorosos, religiosos, políticos, de amizade ou familiares. Deve viver um situação financeira equilibrada e levar em dia o acompanhamento de sua saúde. Preocupação com desenvolvimento pessoal e com lazer de toda a família também contam importantes pontos no que se refere a comportamento.

      A descrição feita por Maritza pode dar impressão de que o mercado procura o inexistente: gente que não tenha nenhum tipo de problema. Não é isto, explica. O equilíbrio em todas as facetas de sua vida profissional e pessoal. Márcia Body diz que o sujeito que é dado a levantar bandeiras religiosas ou políticas, por exemplo, acaba prejudicando a empresa. O tipo "meu nome é trabalho", na opinião de Márcia, a médio prazo vai apresentar problemas de saúde. Será, com certeza, aquele mau humorado que complica as relações internas da empresa.

      VALORIZAÇÃO - As consultorias de recursos humanos recomendam: procure um novo emprego enquanto você está empregado. Para Márcia Body e Maritza Daniel, quem sai de uma empresa para depois procurar outra ou não encontrará uma colocação satisfatória ou, geralmente, vai ganhar menos do que ganhava no antigo emprego. Lúcia Jorge diz que quem procura colocação em outra empresa estando empregado é mais valorizado no mercado.

      Ela considera "ficar muito tempo no mesmo lugar é prejudicial para o profissional e para a empresa". As empresas precisam de constante oxigenação. A partir do quinto ano no mesmo cargo é hora de começar a pensar em mudar de lugar. Se nos dois últimos anos você não teve à sua frente novos desafios, não teve promoções, enfim, não agregou nada a sua posição é porque há algo errado. "Afinal, o desafio é o que alimenta o desenvolvimento profissional", prega a consultora da De Bernt. Esse "algo errado" pode estar na empresa ou no mesmo profissional. "Quando uma pessoa fica muito tempo na mesma empresa acaba criando vícios, cristaliza comportamentos e começa a faltar visão do que ocorre lá fora. Isso não é bom", diz Lúcia Jorge.

      NUMEROLOGIA - Como não é só a formação e o currículo do profissional que interessam, mas principalmente seu comportamento, consultores de RH recorrem também a métodos alternativos para sondar a personalidade dos que procuram nova colocação no mercado. Tanto a Ágire Vinces como a De Bernt usam o recurso da grafologia para fazer a seleção de candidatos. Essa análise é considerada um eficaz método para interpretar a índole de uma pessoa através de sua escrita. Mas há quem, em alguns casos, recorra a métodos não muito otordoxos. Maritza Daniel e Márcia Body contam que existem consultores de RH fazendo cruzamento de diversas informações para escrutinar o perfil dos candidatos, envolvendo aí até astrologia e numerologia. Existem também softwares que a partir de uma série de dados prometem ajudar a definir qual é a personalidade do candidato.

      De resto, para conseguir o cargo almejado é preciso muito bom senso. Quem tem toda a formação necessária para chegar a um bom cargo ainda deve preservar o que se chama de nome bem limpo na praça. As consultorias de RH descobrem tudo, até mesmo aquela manutenção de clube que fica esquecida sem pagamentos durante meses, enquanto não chega o verão. No vestuário, aí sim vale ainda mais o bom senso e uma sondagem sobre quais são os hábitos de vestir dentro da empresa a que se pretende chegar. Há quem já tenha perdido oportunidades apenas por tentar juntar um terno azul-marinho, sapatos pretos e meias brancas. Uma combinação que deixa a perna do cidadão aparecendo árvore de parque com o parte do tronco caída. Na dúvida, vale pedir dicas a seu consultor de RH. Eles conhecem as meticulosidades da área e podem dizer, por exemplo, que se rói unhas é bom parar e procurar uma boa manicure. É, porque aquela unha roída que em outras situações passa sem ser notada também pode mandar suas pretensões para o espaço.

CABEÇA A PRÊMIO

      Procura emprego quem está desempregado, certo? Errado, garantem as consultorias de RH. É preciso estar permanentemente de olho no mercado em busca de uma nova e melhor colocação, mesmo porque atualmente não aparecem mais nos jornais anúncios classificados procurando executivos. Quem procura emprego estando empregado tem mais valor. Para esses, o trabalho do head hunter cai como uma bênção. O consultor de RH que trabalha com caça-talentos é aquele que realmente está retirando um bom profissional de uma empresa para colocá-lo em outra. Coisa que põe o head hunter numa zona onde todos os questionamentos sobre ética parecem sempre razoáveis. É por isso, entre outra coisas, que o caça-talentos trabalha na surdina. A De Bernt, que tem esses caçadores em sua equipe, não usa nem mesmo placa de identificação em seu escritório. É uma forma de evitar contrangimentos diversos a empresa e quem procura um novo emprego.

      A coisa funciona mais ou menos assim. Alguma empresa procura junto à uma consultoria de RH um profissional com um perfil específico. A partir disso, o RH deve fazer um amplo levantamento para definir detalhadamente o que a empresa precisa. Depois, se o escolhido já estiver empregado, não há outro recurso. É preciso tirá-lo de lá, evidentemente oferecendo vantagens. Se a empresa aceitar a troca e alguma coisa sair errado, não há muito o que chorar. Afinal, garantem os caçadores, tudo é feito de forma muito clara e profissional que sempre deve passar no direito de também selecionar a empresa onde vai trabalhar. Sigilo é a alma do negócio. Quem pretende ser uma possível presa de um head hunter não deve esquecer de, discretamente, deixar seu currículo nas consultorias que trabalham com este sistema. Depois, se algum dia a secretária disser que alguém o procura pelo telefone, um antigo amigo que não quer se identificar, pode ser que seu currículo tenha despertado o interesse de um head hunter